CONTEXTUALIZANDO FAMÍLIA
- Teoria e História da Família
- Definições e Conceitos de Família
- Estrutura, Papéis e Funções da Família
- COMPETÊNCIAS E HABILIDADES
- Conceituar a origem e historicidade da família.
- Entender definições e conceitos da família
- Compreender o papel, a estrutura e as funções desempenhadas pela família
Material para autoestudo
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TEORIA E HISTÓRIA DA FAMILIA
Como em outras situações da vida humana, o ciclo que compõe a vida
familiar perpassa por etapas sucessivas durante o processo evolutivo.
Esse fato leva a constante busca de teorias e conceitos que expliquem a
origem e estruturação do grupo familiar.
Estudos apontam que,
originalmente, as famílias organizavam-se sob a forma matriarcal,
conseqüência da vida nômade dos povos primitivos. Nessa época, os homens
ainda desconheciam as técnicas do cultivo da terra, e precisavam sair
em busca de alimento. As mulheres permaneciam com a prole, que crescia
praticamente sob a influência exclusiva da genitora. Essa situação
genuinamente prepondera a figura materna e, em certas sociedades
matriarcais essas mulheres possuíam o direito de propriedade e certos
privilégios políticos.
A organização familiar, contudo, não se
restringe à espécie humana. Faremos uma síntese sobre os
comportamentos familiares de alguns animais para reafirmar o estilo
genérico dos agrupamentos familiares na trajetória da espécie humana,
Há de se lembrar que entre os animais há famílias em que, após o
acasalamento, a prole fica sob os cuidados de um dos genitores,
geralmente a fêmea, porém, em alguns casos, também encontramos o macho
como responsável pelos descendentes. Por sua vez, algumas espécies de
aves vivem com a família durante o período da reprodução e com seus
bandos nas demais épocas do ano. A exemplo da espécie humana, também no
reino animal existem famílias ampliadas(ou extensas), em que os filhos
mais velhos auxiliam na criação dos irmãos. As abelhas operárias, filhas
estéreis das abelhas rainhas, constituem entre si uma comunidade de
irmãs com funções de mútuos cuidados, proteção e alimentação.
Segundo Morgan (apud OSÓRIO, 1996, p. 31), “havia originalmente uma
promiscuidade absoluta, sem qualquer interdição para o intercurso
sexual entre os seres humanos. Este teria sido o período da família
consangüínea, estruturada a partir dos acasalamentos dentro de um mesmo
grupo”.
Durante esse período, após a proibição do relacionamento sexual entre pais e filhos e entre irmãos, surgiu a
família punaluana,
também conhecida como família por grupo, onde os membros se uniam com
componentes de grupos diferentes. Nesse contexto, os homens poderiam se
casar somente com um elemento de outro grupo. Na família
sindesmática ou de
casal, a
união acontecia entre casais que respeitavam o tabu do incesto, mas
sem a obrigatoriedade do casamento intergrupos. Este tipo de família,
encontrada entre os nômades, tinha como característica a convivência de
vários casais no mesmo espaço e sob a autoridade matriarcal.
Da divisão das obrigações, oriunda do desenvolvimento da agricultura, teria originado a
família patriarcal, criada
sob a autoridade absoluta do patriarca ou “chefe da família” que, na
maioria das vezes, vivia em um regime poligâmico, tendo as mulheres
isoladas em determinados locais chamados de gineceus e haréns.
A família monogâmica, modelo
da civilização do Ocidente, cujas origens encontram-se ligadas à ideia
de posse ao longo do processo civilizatório, tinha como condição exigida
para o reconhecimento dos filhos e transmissão hereditária da
propriedade, a fidelidade. Esse modelo de família é predominante no
mundo ocidental até os dias atuais.
A origem etimológica da palavra família, que deriva do vocábulo latino
famulus- que significa escravo doméstico, o que pressupõe
que, primitivamente, se considerava a família como sendo o conjunto
de escravos ou servos de uma mesma pessoa. Isso nos remete à
compreensão da natureza possessiva das relações familiares entre os
povos primitivos. Nessa relação, a mulher obedecia seu companheiro
como se fosse seu proprietário e dono. Os filhos pertenciam a seus
pais, a quem deviam suas vidas e, por conseguinte, esses se julgavam
com total direito sobre elas. O sentido de posse e de poder estava
perceptivelmente ligado à origem e evolução do grupo familiar. Bilac
(1953, p. 31- 231) discorrendo sobre o tema, cita Engels ao afirmar
que:
O termo família, é derivado de famulus
(escravo doméstico) – foi uma expressão inventada pelos romanos para
designar um novo organismo social que surge entre as tribos latinas, ao
serem introduzidas à agricultura e à escravidão legal. Esse novo
organismo caracteriza-se pela presença de um chefe que mantinha sob seu
poder, os filhos e um certo número de escravos, do poder de vida e morte
sobre todos eles e um certo número de escravos, com poder de vida e
morte sobre eles, o paterpolistas.
Talvez as raízes da
palavra família expliquem porque até hoje existam filhos e esposas
submissos ao chefe de família, sem opinar ou questionar sobre os
problemas dentro do seio familiar.
Afirma Aries (1975) que,
até o século XV, a família era“uma realidade moral e social, mas do
que sentimental [...] A família quase não existia sentimentalmente entre
os pobres, e, quando havia riqueza e ambição, o sentimento se inspirava
no mesmo sentimento provocado pelas antigas relações de linhagem.
As famílias, até então, não tiveram necessariamente a reprodução
cotidiana ou geracional como função especifica ou exclusiva, e, em
muitos momentos, desempenharam simultânea e prioritariamente, funções
políticas e econômicas.
Pelo exposto, podemos inferir que a
família antiga era concebida como instituição fundada na e para a
reprodução cotidiana e geracional dos seres humanos. Sua maior missão
recaia na conservação dos bens, na prática comum do oficio. A ajuda
mútua era essencial para a sobrevivência em um mundo em que seres
humanos isolados não sobreviveriam. A função afetiva não pode ser
identificada como algo fundamental à família nessa época, já que as
trocas afetivas e contatos sociais aconteciam entre as pessoas mais
próximas, não necessariamente membros familiares.
Assim, a
instituição família consolidou-se na antiga aristocracia, não
propriamente por laços afetivos, mas visando à questão econômica, ou
seja, além do vínculo consangüíneo, a maior preocupação era assegurar
que o poder aquisitivo não saísse das mãos de seus membros.
MODELOS DE ESTRUTURA DE FAMÍLIA
Para melhor compreensão, discorreremos sucintamente sobre 4 modelos
de estrutura familiar, considerados de abordagem mais relevante quais
sejam: família burguesa de meados do século XIX, a família aristocrática
dos séculos XVI e XVII, a família camponesa dos séculos XVI e XVII e
família da classe trabalhadora do inicio da Revolução Industrial.
Em meados do século XIX,
a família burguesa, nuclear
por definição, habitava as áreas urbanas. Sabe-se que, de 1750 até o
presente momento histórico, o padrão demográfico da família burguesa
evoluiu gradualmente para um padrão de baixa fertilidade e baixa
mortalidade. O planejamento familiar inicia-se nesse grupo. No dia a
dia, as relações entre os componentes da família burguesa assumiram um
modelo característico de intensidade emocional e de privacidade. O
casamento trouxe para esse grupo o conflito que oscila entre as
necessidades da preservação da acumulação de capital e o valor de
escolha individual.
A sexualidade entre os componentes dessa
classe é uma das características mais surpreendente da história moderna.
A burguesia se esforçou para adiar a satisfação sexual como em nenhuma
outra classe. As mulheres burguesas eram consideradas seres assexuais,
angelicais, acima da luxuria animal.
Para os homens dessa
classe, o sexo estava dissociado dos sentimentos de ternura e era
realizado como conquista de mulheres de classe inferior. A prostituição
era requerida pelos homens burgueses porque a plena realização sexual
tornou-se impossível para os cônjuges. A burguesia definiu-se
moralmente, em contraste com o proletário promíscuo e a nobreza sensual,
como uma classe dotada de virtuosa renúncia. O excesso desse
comportamento “virtuoso” levou a burguesia à divisão entre o casamento
e o amor, de um lado, e sexualidade de outro.
O casamento
burguês torna-se perene. Interesses sociais e financeiros predominavam
nessas alianças. Entretanto, o jovem burguês era impulsionado por um
amor romântico. Ao findar o século XIX, o amor romântico passava a ser a
razão central do casamento. Porém, o mais estranho é que na classe
média, o amor romântico raramente sobrevivia aos primeiros anos, e a
expressão “felizes para sempre” traduzia o viver juntos não com
paixão, mas com respeitabilidade.
Na família burguesa, as
relações eram consolidadas mediante rigorosas divisões de papéis
sexuais. O marido era chefe dominante e provia seu sustento da família. A
esposa era considerada ser não pensante e menos capaz, zelava apenas do
lar, em alguns casos, com a ajuda de criadas. O principal interesse da
esposa centrava-se nos filhos.
Os filhos foram reavaliados pela
burguesia tornando-se seres significativos para os pais. Uma relação
mais intima, profunda e emocional se estabeleceu entre pais e filhos
dessa classe. O sentimento de amor materno foi considerado natural nas
mulheres, que não tinham somente o dever de zelar pela prole mas também a
missão de orientá-la para um lugar respeitável na sociedade, além da
atribuição de cuidar do lar e do marido.
As relações internas
das famílias burguesas eram preservadas pela sociedade. A família
torna-se um santuário em cujo ambiente sagrado nenhum estranho tinha
direito de adentrar. Sendo assim, até mesmo o local de trabalho dos
homens da época não poderia ser próximo à residência, pois o lar não era
um lugar de trabalho e sim de lazer, enquanto o ambiente de trabalho
era destinado à ação,à razão. Torna-se assim, ambiente competitivo,
hostil em contraposição ao ambiente de refúgio, aconchego, ternura e
amor.
As crianças burguesas em idade pré-escolar, em maioria,
não conviviam com outras crianças, mas com os adultos da casa. A
partir de 1830, o Estado começou a elaborar orientação e normas que
envolviam assuntos de família, mas, geralmente, só havia intervenção nos
assuntos de famílias, ou seja, ninguém fiscalizava o tratamento das
crianças burguesas. Com inovadoras formas de amor e autoridade, a
família burguesa criou uma nova estrutura emocional.
Família Aristocrática (Séculos XVI e XVII)
O segundo modelo de estrutura familiar, oriundo da aristocrata
européia, incluía uma mistura de parentes, dependentes, criados e
clientes. Consistia em grupos com 40 até acima de 200 membros. Os
aristocratas consideravam de suma importância a preservação da rede de
relações de parentesco e linhagem.
A composição da casa nobre
estava longe de ser estável, Criados e clientes entravam e saiam da
casa nobre; crianças de ambos os sexos eram enviadas para serem criadas
em outras residências nobres. Segundo demógrafos, os aristocratas eram
propensos a terem mais filhos do que a classe inferior, e com índice
de mortalidade infantil inferior.
Os enormes castelos eram
locais públicos e políticos. Simbolizavam, pela magnitude material, o
poder sobre o campesinato. No castelo não havia privacidade. As
construções não propiciavam a privacidade. Todos os que chegavam e
saíam esbarravam-se pelos caminhos e eram obrigados a passarem por
salas em que haviam outras pessoas em decorrência da estrutura física
dos castelos. Os ocupantes dormiam em toda a parte. O mobiliário também
era multifuncional. As relações entre os componentes da casa eram
regidas por uma austera hierarquia, estabelecidas pelas tradições.
Ali, a união matrimonial era um ato político da mais alta ordem. O
destino da linhagem estava sujeito a casamentos que mantivessem intactas
as propriedades da família. Aos pais, cabia a decisão de quem se
uniria a quem. Os dotes eram pequenas fortunas e casar uma filha muitas
vezes era oneroso. Sendo assim, o casamento pouco combinava com amor ou
sexo.
Os aristocratas relacionavam-se sexualmente com a
criadagem e com outros da mesma classe. As concubinas eram aceitas
publicamente. Quase sempre as mulheres eram consideradas criaturas tão
sexuais como os homens e assuntos como sexo e amor não eram assuntos
privativos e secretos.
A riqueza dessa pequena elite (cerca de
1,5% da população na França do século XVIII), consistia no controle da
terra e, em certo grau, nos favores do monarca. A terra, principal forma
de enriquecimento da aristocracia,, de um modo geral não era
considerada um capital a ser melhorado ou explorado. Era, antes de tudo,
um patrimônio sob a prerrogativa da linha de família. A riqueza era
para ser herdada e retransmitida, e não para se ganhar ou acumular.
O trabalho dos nobres era na guerra, servindo o rei e mantendo a ordem.
As esposas eram figuras altivas, mas suas funções principais era
conceber filhos e organizar a vida social. Em geral, não se ocupavam da
administração da casa e nem com a criação dos filhos. A ordem na casa
era organizada hierarquicamente, independente de influência externa. O
Rei procurava controlar os nobres, com exceção no ambiente familiar,
interferia somente em ocasiões raras.
Em virtude dos meios de
transporte da época, os aristocratas em geral vivam longe de suas
companheiras. Segundo estudos, as crianças aristocratas ficavam nas mãos
da criadagem desde o momento de seu nascimento. Pai e mãe raramente se
preocupavam com os filhos, principalmente nos primeiros anos de
formação. Os cuidados com os filhos não eram considerados como
procedimento relevantes e as mães ocupavam-se como damas da sociedade.
As crianças eram consideradas pequenos animais e não seres que
necessitassem de amor e atenção. Os recém-nascidos nobres eram
amamentados por amas de leite. A morte dos pequenos nas mãos da amas não
era incomum, tanto que algumas amas eram conhecidas como “amas
assassinas”. Os filhos não desejados eram certamente encaminhados a
essas mulheres.
Torna-se perceptível que as famílias
aristocratas dispensavam pouco valor à privacidade, cuidados maternos,
amor romântico e relações íntimas com as crianças. A vida emocional dos
filhos não girava em torno dos pais.
A família camponesa (séculos XVI e XVII)
A estrutura familiar camponesa dos povoados que viviam em aldeias era
diferente da classe dominante. O campesinato europeu incluía grandes
desigualdades econômicas. e de posse de riqueza. Abrangia diferentes
modos de produção. Segundo os demógrafos, os camponeses casavam-se perto
dos 30 anos de idade e tinham poucos filhos vivos (quatro ou cinco).
Embora houvesse muitos nascimentos, poucos ou somente a metade
sobreviria até a idade adulta.
Embora fosse numericamente
reduzida, a família camponesa estava interligada num vasto círculo de
sociabilidade, onde a unidade básica da vida camponesa no início do
período moderno não era a família conjugal, mas a aldeia. A aldeia era a
família do camponês.
A autoridade social não estava embutida na
figura do pai, mas na própria aldeia. Em alguns locais, o senhor da
terra e o pároco eram autoridades efetivas, mas no controle e nas regras
do dia a dia prevaleciam os costumes e as tradições da aldeia. Nenhum
fato importante acontecia no seio familiar sem que fosse conhecido ou
fiscalizado pela aldeia. Casamento, relações entre marido e mulher, e
entre pais e filhos tudo passava pelo crivo dos aldeões, que impunham
regras e sanções.
Camponeses e camponesas tinham funções
separadas a desempenhar e, geralmente, as mulheres eram submissas,
embora o trabalho dessas mulheres fosse imprescindível para a
sobrevivência da família e da comunidade. Nessa classe, as mulheres
trabalhavam duramente por longas horas, cozinhavam, cuidavam dos filhos,
dos animais domésticos e da horta e juntavam-se ao resto da aldeia nos
períodos da colheita. As mulheres regulavam os casamentos e fiscalizavam
os namoros. Agindo desta forma, o patriarcado camponês tornava-se
diferente do aristrocrata e do burguês.
Os episódios
emocionalmente importantes nas aldeias não tinham significado na família
e sim no seio comunidade. Eventos como festividades, cultos, casamentos
e até mesmo a morte eram abertos a toda comunidade.
Em alguns
lugares da aldeia, os pais tomavam as decisões sobre a união conjugal
dos filhos, mas, em maioria, a comunidade tinha formas coletivas de
namoro em que se providenciava a formação de casais adequados. A partir
do século XVI, o Estado interveio nos casamentos, numa tentativa de
reforçar a autoridade patriarcal.
A supremacia da aldeia sobre o
parentesco e a família, mesmo no casamento monogâmico, influenciava as
relações de pais e filhos. As genitoras camponesas eram auxiliadas nos
deveres de cuidar dos filhos por parentes, pessoas idosas e moças
solteiras. As mulheres da aldeia transmitiam às mulheres mais jovens os
conhecimentos sobre o aleitamento, enfaixamento, curas de enfermidades,
etc. Esse repasse de informações, era fiscalizados pelos aldeões que
queriam se certificar que os costumes e tradições estavam sendo
realmente repassados para os mais jovens.
No âmbito da família
conjugal, as crianças não eram tidas como propriedades dos pais,nem
tampouco consideradas o centro da vida. Os laços afetivos, em vez de
limitados a pais e filhos, estendiam-se para fora, envolvendo a aldeia e
antepassados. Os mortos eram considerados parte da comunidade. Segundo
alguns historiadores, as crianças camponesas, ainda muito pequenas, eram
abandonadas durante o dia todo, tendo que se arranjarem sozinhas quando
o campo exigia a presença de suas progenitoras.
Assim, a
autoridade da família camponesa difundia-se por toda a aldeia com
vários adultos participando da vida da criança. A afetividade com que a
criança se defrontava estava também dividida entre uma grande variedade
de parentes e aldeões.
As relações entre pai e filho não
continham intimidade ou intensidade emocional, as sanções eram impostas
com castigos físicos. Provavelmente não internalizava figuras parentais
de forma profunda, uma vez que a vida emocional da criança era
condicionada pelos ritmos da aldeia, e extensas tradições e costumes.
A família da classe trabalhadora (meados séculos XIX)
A classe trabalhadora surge entre o campesinato deslocado e os níveis
mais baixos da sociedade urbana. e desenvolve uma estrutura de família
sob condições de agonia social e econômica, Entretanto, no decorrer do
tempo, a família da classe trabalhadora passou a se parecer muito com a
família burguesa.
A alta fertilidade, a alta mortalidade e a
baixa expectativa de vida marcaram essa classe no período inicial da
industrialização. Os salários eram baixos, crianças também precisavam
trabalhar para ajudar no sustento da família. As condições de vida eram
ruins, as horas trabalhadas giravam em torno de 14 a 17 horas diárias.
Os filhos a partir dos 13 e 14 anos saiam de casa em busca de trabalho.
Os jovens proletários declaravam muito cedo independência dos
pais.Esses grupos de jovens, alvos de preocupação constante, eram
denominados “delinqüentes juvenis”. Nessa classe os jovens estavam
propensos a casarem-se mais cedo do que na burguesia.As relações
entre homens e mulheres tendiam a subverter os padrões patriarcais, dado
que as mulheres trabalhavam fora de casa e ainda faziam afazeres
domésticos.
Na família da classe trabalhadora, os filhos eram
criados de maneira informal, mais antiga, sem a constante atenção e
fiscalização da mãe. As crianças eram forçosamente amamentadas ao peito
por mãe subalimentadas, cansadas e preocupadas. Nesse período, os
cuidados com a higiene e controle genital eram negligenciados.Assim, os
filhos do proletariado eram muito mais criados pela rua do que pela
família. O padrão de autoridade imposto à criança da classe
trabalhadora era semelhante à da classe dos camponeses, sem, contudo,
ser fechada dentro de uma aldeia, mas jogada no mundo capitalista
industrial.
Infere-se que a maior influência sobre as
condições de vida da classe trabalhadora, tenha sido os movimentos
sindicalistas que, coletivamente, lutaram pela melhoria de vida dos
operários da época. Nesse período também os operários do sexo masculino
estavam predispostos a formar pequenos grupos que oscilavam entre
trabalho e bar. As mulheres, por sua vez, passaram a formar comunidades
nas residências. Dessa forma, a família passava por novas
transformações de organização e atribuição.
CONCEITOS DE FAMÍLIA
Para Da Mata (1987, p. 145)
Família não é apenas uma Instituição social capaz de ser
individualmente, mas constitui também, e particularmente, um valor. Há
uma escolha, por parte da sociedade brasileira, que valoriza a família,
como uma Instituição fundamental à própria vida social; é um grupo
social e uma rede de relações; funda-se na genealogia e nos elos
jurídicos, mas também se faz na consciência social, intensa e longa.
Segundo Ferrari (1994, p.18)
Família é aquela que propicia aportes afetivos e o bem estar de seus
componentes; ela desempenha papel decisivo na educação formal e
informal; é em seu espaço que são absorvidos os valores éticos e
humanitários onde se aprofundam laços de solidariedade; é também em seu
interior que se constroem as marcas entre as gerações e são observadas
os valores culturais.
Assim, a família pode ser entendida
como um conjunto de relações sociais baseadas em elos consanguíneos,
adoção e uniões socialmente reconhecidas legalmente ou não.
A
família abordada enquanto unidade doméstica centra-se nas condições
materiais, isto é, na manutenção da vida: alimentação, vestuário,
habitação, repouso. No passado, o grupo familiar, era uma unidade de
produção, encarregando-se, ela própria, da produção dos meios de
sobrevivência.
Enquanto instituição, a família pode ser
entendida como um conjunto de normas e regras, historicamente
constituídas, que governam as relações de sangue, adoção, aliança, e
determinam a filiação, os limites do parentesco, da herança e do
casamento. O conjunto de regras e normas está contido nos costumes e na
legislação, apresentadas no Código Civil.
A família também pode
ser entendida como um conjunto de valores determinados como ideologia,
estereótipos, preceitos, representações sobre o que ela deve ser. Ao
longo da história no mundo ocidental, as teorias de como a família deve
ser couberam inicialmente à igreja, em seguida ao Estado, e,
finalmente, à própria ciência. Estas entidades organizaram várias regras
e recomendações de como deveria ser o comportamento das pessoas.
Atualmente são os meios de comunicação que divulgam e “ditam” novas
idéias, orientações e estudos comportamentais relativos à família e seus
membros.
A família proporciona o marco adequado para a
definição e conservação das diferenças humanas, dando forma objetiva aos
papéis distintos, mas mutuamente vinculados, do pai, da mãe e dos
filhos, que constituem os papéis básicos em todas as culturas.
(PICHON-RIVIÉRE, apud OSÓRIO, 1996, p.15).
Muitas
são as conjecturas formuladas sobre família, algumas se caracterizam
pelas funções biológicas, outras, pelas funções psicossociais, apontando
o inicio às questões concernentes aos laços consanguíneos, ou seja,
aos papéis maternos e paternos como estruturadores do grupo familiar.
Dizer que família é a unidade básica da interação social talvez seja a
forma mais genérica e sintética de defini-la.
Em todos os
conceitos apresentados é comum observarmos que a família apresenta-se
como uma estrutura social, uma construção humana que se consolida,
transformando-se conforme a influência do meio social, sendo, portanto,
historicamente construída.
Assim sendo, é importante ressaltar
que a estrutura familiar varia conforme os momentos históricos, fatores
sócio-políticos, econômicos, religiosos e culturais, estando o conceito
de família associado ao contexto social no qual está inserido, ou seja,
precisamos, antes de qualquer ação, definir de que família estamos
falando, a época em que ela vive e a qual segmento pertence.
FUNÇÕES E PAPÉIS DA FAMÍLIA
A família funciona como agente educador. Exerce a função socializadora
na transmissão da herança cultural e social durante os primeiros anos
de vida da criança. È a família que repassa os usos da
linguagem,costumes, valores e crenças,preparando a criança para o
ingresso na sociedade.
É no seio da família que o homem aprende
as virtudes sociais, como amor, fraternidade e obediência, qualidades
requeridas para que se enquadre no meio.
No que concerne às atribuições que lhe são conferidas, Marconi e Presotto (1989, p. 106) consideram que
As funções básicas da família podem ser desempenhadas de várias
maneiras, dentro dos mais diversos sistemas culturais, tentando moldar
as personalidades individuais. Como agente educador, a família pode
combinar duas funções especificas:
Socializadora – na medida em
que transmite a herança cultural e Social, durante os primeiros anos de
vida: linguagem, usos, costumes, valores, crenças (processo de
endoculturação), preparando a criança para o seu ingresso na sociedade.
Social
– quando proporciona a conquista de diferentes status como étnico, o
nacional, o religioso, o residencial, o de classe, o político e o
educacional. (
grifo nosso)
Papéis Familiares
Os papéis familiares diferem conforme a composição familiar,
confundindo-se devido à realidade da estrutura familiar. Para
exemplificar, em um casal sem filhos os papéis familiares seriam tão
somente os de marido e mulher. Já na família Nuclear seriam as de
mãe-pai-irmãos e filhos. Na família extensa, há necessidade de incluir o
papel dos avós, tios e demais agregados que dividem o mesmo teto.
deve-se citar ainda, , na atualidade, as uniões entre pessoas do mesmo
sexo.
Na visão contemporânea, houve uma transformação desses,
papéis, e, em alguns casos, uma inversão. Tenha o casal filhos ou não,
atribuir à mulher o papel de zelar pelo lar e do homem como provedor do
sustento da família, seria um processo ultrapassado e não condizente com
a realidade. O papel conjugal baseia-se na interdependência das partes
do casal, pautado na essência da sobrevivência das pessoas. São os atos
de complementaridade, cooperação, reciprocidade e compartilhamento de
tarefas e sentimentos que delimitam o papel conjugal, seja entre acordos
verbais ou não.
Papel Parental
O papel
feminino apesar das diversas transformações ainda mantém uma das
principais funções: o de gerar a vida. Porém, quanto às tarefas
nutriciais, proteção e educação muito houve de absorção do papel
paternal e pela pessoa remunerada para, na ausência da mãe, desempenhar o
papel materno.
Papel Fraterno
O papel fraterno alterna entre dois comportamentos opostos: a
rivalidade e a
solidariedade. Por vezes o papel fraterno está deslocado para a relação entre marido e mulher ou entre filho e um dos progenitores.
O papel fraterno reproduz fora do contexto familiar na relação entre
sócios, colegas e amigos, assim como os papeis parental e filial terão
sua representação social em relações tais como a dos chefes e seus
subordinados, professores e alunos, médicos e pacientes e outras tantas
mais.
PAPEL FILIAL
O foco central do papel
filial situa-se na subordinação do recém-nascido que depende dos
cuidados dos pais para sobreviver. Salienta-se que há casos em que estas
funções não são desempenhadas por papéis parentais.Os papéis, portanto,
não são competências exclusivas do indivíduo a que normalmente se
atribui.
FUNÇÕES DA FAMÍLIA
As funções da
família podem ser divididas em biológicas, psicológicas e sociais.
Apesar dessa divisão, não há como estudá-la separadamente.
A
função biológica da família é de garantir a sobrevivência da espécie com
cuidados dispensados aos recém-nascidos.As funções psicossociais são
essência, já que o alimento afetivo é o que faz o desenvolvimento do
indivíduo psiquicamente saudável. São estas funções que, quando bem
desempenhadas darão sustentabilidade e apoio aos indivíduos nos momentos
de crise e anseios humanos. Quanto às funções sociais, não só podemos
inferir a transmissão das questões culturais, como também a preparação
para o exercício da cidadania.
Assim, podemos dizer que, se os
pais influenciam o comportamento do filho, este também interfere nas
atitudes dos pais. Esse processo é chamado de retroalimentação.
Podemos concluir que conhecer e entender a origem da família, bem como
seus conceitos, funções e papéis requer mais do que a leitura do tema.
Requer primeiramente, saber identificar sobre qual família, período e
aspecto se quer conhecer mais profundamente.uma vez que há uma
complementariedade de conhecimento essenciais para entender e conceituar
a família em seus diversos contextos.
Vale ressaltar que
todo comportamento hoje assinalado nos modelos familiares teve sua
origem e sua história construída sob a influência de fatores externos
como econômicos, políticos e sociais. Essa mutação ainda continua a
modificar os papéis e comportamentos da família no contexto atual.
Saiba +: No lar burguês, predominava o treinamento de hábitos
higiênicos; pedia-se que a criança controlasse o seu corpo, No castelo,
a criança devia obediência à autoridade e à hierarquia social.