domingo, 16 de março de 2014

Edgar Morin e como Ensinar a identidade terrena X Educação capitalista, voltada para o Mercado de John Maynard Keynes







Uma breve comparação entre Edgar Morin e como Ensinar a identidade terrena X Educação capitalista, voltada para o Mercado de John Maynard Keynes

Edgar Morin, nascido em Paris, filho único de uma família judia. Sua mãe faleceu quando ele tinha 10 anos.. Estudou direito, história, filosofia, sociologia e economia. Em 1942, obteve a licenciatura em direito e em história e geografia. Em 1941, adere ao Partido Comunista, «num momento em que se sentia, pela primeira vez, que uma força poderia resistir à Alemanha nazista.
Depois de lutar como combatente, deixa o partido Comunista em 1949 e  começa uma crítica aos Judeus que perseguiam os palestinos, publicando vários artigos à respeito. Chegando a ser processado por seus artigos, sendo acusado de racista. Sendo autor de muitas obras que questionam o homem, a razão e o imaginário. Entre as obras de Morin, está os Setes Saberes que aborda com muita propriedade  a condição humana e suas incertezas.
Dentre elas, Ensinar a identidade terrena, que consiste no reconhecimento da identidade planetária e a importância  da mesma para a Educação. Pois segundo Morin, o destino planetário é uma das realidades que a Educação ignora, devendo o tema se converter num dos temas centrais da Educação do século XXI.
È importante mostrar a história da era planetária, que se iniciou com a comunicação entre todos os continentes, mas de forma desigual para alguns povos. Colocando a  importância da interatividade no globo, no reconhecimento de identidade terrena, sem ocultar as opressões e a dominaçã que devastou a humanidade e que ainda sobrevive nos dias de hoje.
Morin também destacou que o processo de migração levou ao mundo inteiro fatos novos, em todos os sentidos. Desde o conhecimento, ciência, tecnologia, até doenças que disseminaram e invadiram comunidades, desde as mais pobres às grandes sociedades. Desde que o homem resolveu conquistar novas terras, evoluiu, mas também criou vários outros problemas na medida que interferiu no ritmo da natureza. Daí o autor afirmar sobre as incertezas quanto ao futuro, na busca da identidade terrena, que a seu ver envolve a individualidade humana , mas também tem que ser considerada no conjunto pois um faz parte do outro.
Vivendo Morin no século XX, considerou que o marco da crise planetária mostra que a identidade terrena partilha do mesmo problema, vida e morte como destino. E, em função da crise planetária o ser humano iniciou uma busca desenfreada por alternativas, como bucar qualidade vida, se refugiar no consumismo, a busca da sensibilidade, com outras relações mais humanas e solidérias.
Diante de tanta diferença e ao mesmo tempo igualdade, Morin afirma que; “é necessário ensinar não mais para unir concentricamente as pátrias, famílias regiões, mas sim integrá-las no Universo concreto da pátria terrestre.”

 

John Maynard Keynes e a educação do capitalismo

      Considerado um dos mais importantes economistas de toda a história, John M. Keynes nasceu numa família de intelectuais.
Em 1902 Keynes recebeu uma bolsa de estudos para estudar no King's College, da Universidade de Cambridge. Conta-se que, ao entrar na universidade, já possuía 329 livros antigos.
    Em 1919 publicou seu ponto de vista no livro "As Conseqüências Econômicas da Paz". Seu trabalho teve grande impacto político em praticamente todas as nações capitalistas. . Em 1944 chefiou a delegação britânica na Conferência de Bretton Woods, que deu origem ao Banco Mundial e ao Fundo Monetário Internacional.
John M. Keynes morreu em em decorrência de problemas cardíacos.

        Para a educação, o paradigma de produção no fordismo (Ford - Empresário Americano que enriqueceu com a sua linha de montagem de carros) traz como principal conseqüência a dualidade na educação. Ou seja, traz a necessidade de escolas diferenciadas para cada tipo de futuros trabalhadores: uma para aqueles que irão pensar, conceber os processos produtivos, e outra para aqueles vão apenas executar as tarefas pensadas pelos primeiros.
No Brasil, isso pode ser constatado pela dualidade nos tipos de escola, para as diversas realidades que as pessoas viviam. O antigo segundo grau, chamado também de científico, se dirigia às pessoas mais abastadas dentro da hierarquia social, que não precisavam trabalhar. Assim, podiam retardar sua entrada no mercado de trabalho após o término do curso superior e se aperfeiçoarem. Para estes, portanto, os cursos os preparavam para a entrada na universidade.
De outro lado, para os filhos dos mais pobres da sociedade, que não podiam aguardar o término do curso superior para a entrada no mercado de trabalho, havia os cursos de segundo grau profissionalizante. Estes, entretanto, eram pensados para alguma carreira técnica dentro das organizações produtivas, geralmente pensadas em termos das qualificações para os postos mais subalternos. No Brasil, esta dualidade na formação das pessoas durou, pelo menos em termos de lei, até a promulgação da LDB – Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, em dezembro de 1996 (Lei 9.394/96).
Como vemos, a dualidade de processos de trabalho a que eram submetidas as pessoas dentro da fábrica era copiada nos modelos educacionais. Em relação ainda às conseqüências do modelo de organização fabril dentro da escola, não devemos esquecer que neste modelo, como a concepção era separada da execução, havia a necessidade de que pessoas trabalhassem observando como era executado o trabalho, o que na fábrica é conhecido por supervisão. Em qualquer escola brasileira, ou ainda na imensa maioria delas, existe o cargo de supervisor educacional. Ou seja, nossas escolas ainda estão organizadas dentro do paradigma fordista de organização do trabalho.
Outro elemento importante a ser pensado é em relação ao tipo de educação que se quer. Como a lógica do sistema fordista de produção era a produção em massa para um consumo em massa, isso significava a necessidade de um tipo padrão de trabalhador que iria trabalhar praticamente da mesma forma, bem como consumir praticamente as mesmas coisas.
          O fordismo keynesiano e a educação partir de salas de aula com apenas um professor, seguido por um número grandede alunos que erapraticamente obrigados a repetir tudo o que o professor falava.
         Era o modelo pedagógico tradicional, mas note que esta pedagogia tem raízes também no mundo da produção, não dependendo, portanto, somente da maldade ou do gosto das pessoas.
Sua doutrina máxima, a do keynesianismo, previa que o Estado pudesse interferir na atividade econômica de forma a buscar o desenvolvimento econômico e o bem-estar das pessoas.

            Assim, este pôde incentivar como quis, de um lado a modernização conservadora da agricultura e de outro, a consolidação no país da indústria automobilística, além de todo um aparato público–privado de pesquisa para o desenvolvimento econômico do Brasil.Desta forma, a escola continuou dual, com modelos para os que iriam ocupar cargos diferenciados nas hierarquias
organizacionais, para os que iam conceber o trabalho e para os que iam executá-lo. Vindo agora, no século XXI, a iniciar um resgate de cidadania da população carente e com uma melhor qualidade de ensino para todos.

Comentário
         A grande diferença do pensamento de Edgar Morin em relação `a Jhon Keinesé que o primeiro pensava na educação global, Morin respeita as singularidades do sujeito, sempre na busca da liberdade de expressão e outros direitos, inclusiva o de errar. Vendo o ser humano como um todo, fazendo parte do Universo, tendo a identidade terrena independente de pátria ou qualquer outro movimento faccioso. Colocando peso na união do homem, apesar das diferenças, na busca da identidade terrena, que nunca se finda pois a busca é infinita.
            Em contrapartida Keines pensava no homem como se fosse robô fabricado em série e escala. Desumanizando tanto a educação como o processo de trabalho, para os menos abastados, condecorando assim uma elite hierárquica na sociedade.
            Enquanto o filho do trabalhador braçal ia seguindo os mesmos passos do pais, por falta de opção estudava somente o suficiente para ser chefiado nunm trabalho manual e os filhos dos ricos se formavam nas Universidades para dominar a mão-de-obra semi-escrava.
            Keines seguia a linha fordista de produção, onde o que importava no final era o Capital. Sem pensar em igualdade de oportunidades para todos. Seu mundo se resumia no montante do Tesouro e na mais valia. Poucos tinham a identidade terrena reconhecida, pois a grande maioria  era escória da sociedade. O privilégio a uma Educação de qualidade e voltada para o comando estava nas mãos de poucos privilegiados. O mundo capitalista pensa na terra como investimento monetário, enquanto Morin vê mais adiante e valoriza acima de tudo o ser humano. Pois as transformações só podem ocorrer com a conscientização do homem que se identifica com o seu meio, fazendo uma permuta e não um movimento exploratório.  Ainda estamos lutando contra o paradigma do capitalismo com novas linhas de pensamento, a de preservação do planeta vem sido discutida e colocada em xeque para os países ricos. Porém segundo Morin, temos que prosseguir apesar das incertezas e dos erros.




Refênias bibliográficas: Os Sete Saberes, de Edgar Morin; Fundamentos Econômicos da Educação Capitalista, NET-SABER;Kynes e a superação da crise; Wikipédia.


Pesquisado por: Tânia Maria da Silva, 3º período, Manhã – ISE Santo Antônio de Pádua







quarta-feira, 12 de março de 2014

Autobiografia de TANIA MARIA DA SILVA - equeno relato



Autobiografia de
TANIA MARIA DA SILVA

            Nasci em Nova Friburgo, tenho 51 anos de vida e há 21 anos vivo em Pádua e ainda sofro muito com calor do verão. Minha infância foi difícil e pobre como a da maioria dos brasileiros, mas muito prazerosa no tocante a parte lúdica das criança daquela época. Joguei muita gude (à vera), chicotinho queimado, pulei muita corda, amarelinha e outras brincadeiras. Mas como eu sempre fui alta e estabanada, gostando de brincadeiras de garotos; minha mãe dizia que por pouco eu  teria nascido homem. Mas, críticas à parte, desde os meus 9 anos de idade que tinha carteirinha da biblioteca. Li quase todas as obras infantis de Monteiro Lobato; então não parei mais de ler; é meu vício positivo.
            Na adolescência totalmente alienada do que ocorria no país, degustei a Biblioteca das Moças da Literatura Francesa, muita água com açúcar, mas foi uma mal necessário. Namorados? Alguns. Ficantes muitos. Era muito divertido para mim e minhas amigas ficar com um cara diferente a cada domingueira (baile). O conjunto que mais gostávamos na é poça era o Fhevers. Dançar é muito bom. Na época íamos desde os ensaios em escolas de samba até o Rock. .
            Diante do relato acima dá para perceber que fui uma adolescente normal, cassei aos 27 anos.. Tive 2 filhos que amo muito; um com, 27 anos, o mais novo  que foi para o Rio com 17 anos, está fazendo Ciências Sociais na UFRJ. Este é um capítulo especial na minha vida.
            Trabalho desde os 13 anos de idade, quando comecei estudar à noite, adiantava o relógio da casa da patroa para poder fazer datilografia e estudar. Era uma loucura, sempre foi, e se deixar de viver trabalhando e estudando não sei o que acontece. Hoje morando sozinha, odeio serviço doméstico e sou meio relapsa com isso. Aliás; estou morando sozinha porque me separei há 8 anos e agora meus rebentos criaram asas. Mas amo viver e trabalhar com pessoas. Gosto de gente; o meu sonho era ser psicóloga, mas, graças a Deus consegui um curso que trabalha com ciências humanas, a Pedagogia. Para mim o maior Capital que existe no mundo é gente. Quanta diversificação! È lindo!
            Tenho o espírito muito jovial e se for permitido ainda quero ter mais experiência nesta nave chamada Terra. Sonho em escrevet livros para crianças e jovens. Amo as crianças e os jovens. È nessa tenra idade que nos, futuros educadores temos a oportunidade de ajudar a emancipar essas mentes. Lançar a semente e aguardar os frutos. Que Deus nos abençoe nesta missão.
            Estou quase debutando num tratamento para transtorno mental, segundo a literatura médica, tenho sou Bipolar e como é necessário o CID, (Código Internacional de Doença) me enquadraram nesta doença que oscila de vez em quando. Que É? Trans torno Bipolar de Humor, onde o sujeito vai da mais alta alegria para o fundo do poço, de acordo com suas vivências e ou remédios e terapia. È mais ou menos isso: meio “sem pé nem cabeça” como dizia o meu saudoso pai Antônio. “ Tânia isso não tem pé nem cabeça. De onde você tirou isso?” Eu, um determinado surto em que papai ficou responsável por mim, ficava a imaginar: o que é uma coisa sem pé nem cabeça? Tentava conceber e nascia um monstro ainda maior na minha cabeça, melhor seria um bicho de sete cabeças. Depois dizem que nós somos doidos, arrumam cada interpretação para fatos... Honestamente eu nao sei, odeio pensar nessa coisa sem pé nem cabeça. Tenho a imaginação muito fértil e é perigoso ficar pensando muito, segundo dizem os “lúcidos.”
            Como caminho entre vales e montanhas, mais uma vez, tive problemas, moro só e fiquei desempregada, tendo de fazer estágio na Faculdade e procurar um trabalho. Coisa difícil, pois os empregadores, não aceitam uma pessoa que têm de cumprir 2 anos de estágio, aqui em Santo Antônio de – RJ- Brasil, sem remuneração.. Com o agravante de ter transtorno mental, e já estar com 51 anos. E como as pessoas não gostam de estorvo, teimam em me aposentar por “Invalidez”. É mole! Logo eu que tenho um tesão imenso por literatura, crianças e gente de um modo geral. Briguei com Coordenador Pedagógico da FAETERJ, que diz que a “Regra é clara” também na Educação! Chutei o balde e abandonei os estudos neste semestre. Não consigo conviver com a hipocrisia das pessoas que por falta de competência, fazem alianças escusas. Não sou a ternurinha, Wanderléia e muito menos a Baby Consuelo; com todo o respeito às duas.
            Hoje, eu quero o direito de viver com dignidade, neste planeta que é nosso, assim como tantas outras pessoas, e luto por isso. Lei da sobrevivência, aliada ao direito de sonhar com um trabalho em me realize e tenha uma remuneração decente.
            Mas tem um detalhe, estou desorganizada e nem sei mais se quero me filiar a algum partido, como o próprio nome diz. Prefiro ser autêntica e caminhar para o meu progresso moral também. Pois não acredito em luta de classes sem solidariedade. E, segundo Edgar Morin, em livro , “Os sete saberes”, o mundo interior  representa 98% de sua conexão interna e 2% para a conexão externa, provando da necessidade sonhos, desejos, imagens  e fantasias para o humano.
            “Deixa nascer o amor. Deixa crescer o amor. O sal da terra. A PAZ na terra.....”


Tânia Maria da Silva – 15/12/2012

terça-feira, 11 de março de 2014

Entenda a polêmica sobre a usina de Belo Monte

Entenda a polêmica sobre a usina de Belo Monte

  • Data de publicação

A polêmica em torno da construção da usina de Belo Monte na Bacia do Rio Xingu, em sua parte paraense, já dura mais de 20 anos. Entre muitas idas e vindas, a hidrelétrica de Belo Monte, hoje considerada a maior obra do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), do governo federal, vem sendo alvo de intensos debates na região, desde 2009, quando foi apresentado o novo Estudo de Impacto Ambiental (EIA) intensificando-se a partir de fevereiro de 2010, quando o MMA concedeu a licença ambiental prévia para sua construção.

Os movimentos sociais e as lideranças indígenas da região são contrários à obra porque consideram que os impactos socioambientais não estão suficientemente dimensionados. Em outubro de 2009, por exemplo, um painel de especialistas debruçou-se sobre o EIA e questionou os estudos e a viabilidade do empreendimento. Um mês antes, em setembro, diversas audiências públicas haviam sido realizadas sob uma saraivada de críticas, especialmente do Ministério Público Estadual, seguido pelos movimentos sociais, que apontava problemas em sua forma de realização.

Ainda em outubro, a Funai liberou a obra sem saber exatamente que impactos causaria sobre os índios e lideranças indígenas kayapó enviaram carta ao Presidente Lula na qual diziam que caso a obra fosse iniciada haveria guerra. Para culminar, em fevereiro de 2010, o Ministério do Meio Ambiente concedeu a licença ambiental, também sem esclarecer questões centrais em relação aos impactos socioambientais.

O governo federal então anunciou para o mês de abril passado, o leilão da usina.

Veja abaixo um resumo dessa história que teve início em fevereiro de 1989, em Altamira, no Pará, com a realização do I Encontro dos Povos Indígenas no Xingu:

Realizado entre 20 e 25 de fevereiro de 1989, em Altamira (PA), o I Encontro dos Povos Indígenas do Xingu, reuniu três mil pessoas - 650 eram índios - que bradaram ao Brasil e ao mundo seu descontentamento com a política de construção de barragens no Rio Xingu. A primeira, de um complexo de cinco hidrelétricas planejadas pela Eletronorte, seria Kararaô, mais tarde rebatizada Belo Monte. De acordo com o cacique Paulinho Paiakan, líder kaiapó e organizador do evento ao lado de outras lideranças como Raoni, Ailton Krenak e Marcos Terena, a manifestação pretendia colocar um ponto final às decisões tomadas na Amazônia sem a participação dos índios. Tratava-se de um protesto claro contra a construção de hidrelétricas na região.

Encontro de Altamira reuniu 3 mil pessoas, 650 índios, entre elas, e foi considerado um marco do socioambientalismo no Brasil.


Em 2008, 19 anos depois, realizou-se em Altamira o II Encontro dos Povos Indígenas do Xingu e daí nasceu o Movimento Xingu Vivo para Sempre. Na memória dos brasileiros, o encontro ficou marcado pelo gesto de advertência da índia kaiapó Tuíra, que tocou com a lâmina de seu facão o rosto do então diretor da Eletronorte, José Antônio Muniz Lopes, aliás presidente da estatal durante o governo FHC. O gesto forte de Tuíra foi registrado pelas câmaras e ganhou o mundo em fotos estampadas nos principais jornais brasileiros e estrangeiros. Ocorrido pouco mais de dois meses após o assassinato do líder seringueiro Chico Mendes, em Xapuri (AC), que teve repercussão internacional, o encontro de Altamira adquiriu notoriedade inesperada, atraindo não apenas o movimento social e ambientalista, como a mídia nacional e estrangeira.

O I Encontro dos Povos Indígenas foi o resultado de um longo processo de preparação iniciado um ano antes, em janeiro de 1988, (veja o item Histórico) depois que o pesquisador Darrel Posey, do Museu Emílio Goeldi do Pará, e os índios kaiapó Paulinho Paiakan e Kuben-I participaram de seminário na Universidade da Flórida, no qual denunciaram que o Banco Mundial (BIRD) liberara financiamentos para construir um complexo de hidrelétricas no Rio Xingu sem consultar os índios. Convidados por ambientalistas norte-americanos a repetir o depoimento em Washington lá foram eles. E, por causa disso, Paiakan e Kube-I acabaram enquadrados pelas autoridades brasileiras, de forma patética, na Lei dos Estrangeiros e, por isso, ameaçados de serem expulsos do país. O Programa Povos Indígenas no Brasil, do Centro Ecumênico de Documentação e Informação (Cedi), uma das organizações que deu origem ao Instituto Socioambiental (ISA), convidou Paiakan a vir a São Paulo, denunciou o fato e mobilizou a opinião pública contra essa arbitrariedade.

Para avançar na discussão sobre a construção de hidrelétricas, lideranças kaiapó reuniram-se na aldeia Gorotire em meados de 1988 e decidiram pedir explicações oficiais sobre o projeto hidrelétrico no Xingu, formulando um convite às autoridades brasileiras para participar de um encontro a ser realizado em Altamira (PA). A pedido de Paiakan, o antropólogo Beto Ricardo e o cinegrafista Murilo Santos, do Cedi, participaram da reunião, assessorando os kaiapó na formalização, documentação e encaminhamento do convite às autoridades. Na seqüência, uniram-se aos kaiapó na preparação do evento. O encontro finalmente aconteceu e o Cedi, com uma equipe de 20 integrantes, reforçou sua participação naquele que seria, mais tarde, considerado um marco do socioambientalismo no Brasil. Ao longo desses anos, o Cedi, e depois o ISA, acompanharam os passos do governo e da Eletronorte na questão de Belo Monte, alertas para os impactos que provocaria sobre as populações indígenas, ribeirinhas e todo o ecossistema da região.

Listada no governo FHC como uma das muitas obras estratégicas do programa Avança Brasil, a construção do complexo de hidrelétricas no Rio Xingu faz parte da herança legada ao governo Lula, eleito em novembro de 2002. Herança que era bem conhecida. Tanto assim, que o caderno temático O Lugar da Amazônia no Desenvolvimento do Brasil, parte do Programa do Governo do presidente eleito, alertava: “Dois projetos vêm sendo objeto de intensos debates: a Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, e o de Gás de Urucu, no Amazonas. Além desses também preocupam as 18 barragens propostas na Bacia do Rio Araguaia e Tocantins. A matriz energética brasileira, que se apóia basicamente na hidroeletricidade, com megaobras de represamento de rios, tem afetado a Bacia Amazônica. Considerando as especificidades da Amazônia, o conhecimento fragmentado e insuficiente que se acumulou sobre as diversas formas de reação da natureza em relação ao represamento em suas bacias, não é recomendável a reprodução cega da receita de barragens que vem sendo colocada em prática pela Eletronorte”.

DECISÃO FICOU PARA O GOVERNO LULA

Exemplos infelizes como a construção das usinas hidrelétricas de Tucuruí (PA) e Balbina (AM), as últimas construídas na Amazônia, nas décadas de 1970 e 1980, estão aí de prova. Desalojaram comunidades, inundaram enormes extensões de terra e destruíram a fauna e flora daquelas regiões. Balbina, a 146 quilômetros de Manaus, significou a inundação da reserva indígena Waimiri-Atroari, mortandade de peixes, escassez de alimentos e fome para as populações locais. A contrapartida, que era o abastecimento de energia elétrica da população local, não foi cumprida. O desastre foi tal que, em 1989, o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), depois de analisar a situação do Rio Uatumã, onde a hidrelétrica fora construída, concluiu por sua morte biológica. Em Tucuruí não foi muito diferente. Quase dez mil famílias ficaram sem suas terras, entre indígenas e ribeirinhos. Diante desse quadro, em relação à Belo Monte, é preciso questionar a forma anti-democrática como o projeto vinha sendo conduzido, a relação custo-benefício da obra, o destino da energia a ser produzida e a inexistência de uma política energética para o país que privilegie energias alternativas.

Essas questões continuam a ser repisadas pelos movimentos sociais que atuam na região, como por exemplo, o Movimento Xingu Vivo para Sempre, criado recentemente, e que reúne os que levam adiante a batalha contra a construção de Belo Monte e de outras hidrelétricas no Rio Xingu.

Empossado na presidência da Eletrobrás, em janeiro de 2003, o físico Luiz Pinguelli Rosa, declarou à imprensa que o projeto de construção de Belo Monte seria discutido e opções de desenvolvimento econômico e social para o entorno da barragem estariam na pauta, assim como a possibilidade de reduzir a potência instalada, prevista em 11 mil megawatts (MW) no projeto original.

A persistência governamental em construir Belo Monte está baseada numa sólida estratégia de argumentos dentro da lógica e vantagens comparativas da matriz energética brasileira. Os rios da margem direita do Amazonas têm declividades propícias à geração de energia, e o Xingu se destaca, também pela sua posição em relação às frentes de expansão econômica (predatória) da região central do país. O desenho de Belo Monte foi revisto e os impactos reduzidos em relação à proposta da década de 80. O lago, por exemplo, inicialmente previsto para ter 1.200 km2, foi reduzido, depois do encontro, para 400 km2. Os socioambientalistas, entretanto, estão convencidos de que além dos impactos diretos e indiretos, Belo Monte é um cavalo de tróia, porque outras barragens virão depois, modificando totalmente e para pior a vida na região.

AS VÁRIAS FACES DO PROJETO



“Belo Monte é a melhor usina hidrelétrica do mundo”, afirmou categoricamente José Muniz Lopes, em entrevista concedida ao ISA no segundo semestre de 2002, quando era presidente da Eletronorte, subsidiária da Eletrobras na Amazônia Legal, responsável pelo projeto. Lopes, que hoje é presidente da Eletrobrás, defendeu sua afirmação à época relacionando a capacidade instalada prevista da usina hidrelétrica, 11.233 megawatts (MW), com a geração média anual de 4.796 MW. Belo Monte, um dos sete barramentos previstos originalmente pela Eletronorte para o Rio Xingu, terá um reservatório de 516 km2, extensão que no projeto original era de 1200 km2.

Está previsto para o empreendimento a implantação de uma casa de força principal com 20 máquinas com potência unitária de 550 MW, responsáveis pela geração de 11 mil MW, uma casa de força secundária com sete unidades de 25,9 MW cada, que totalizam os 181,3 MW adicionais. De acordo com a Eletronorte, a segunda casa de força foi projetada para melhorar o aproveitamento da vazão do rio e reduzir os impactos ambientais.

Também serão construídos dois canais de adução, cada um com cerca de 12 quilômetros de extensão e largura média de 250 metros, para auxiliar na pressão das águas às turbinas. Para a construção desses canais, serão escavados 144 milhões m3 de terra e 51 milhões m3 de rocha, material que, segundo o Movimento pelo Desenvolvimento da Transamazônica e do Xingu (MDTX), ainda não tem destino. Muniz afirma que o volume é, efetivamente, grande, mas já existe um estudo de realocação do material, como, por exemplo, utilizá-lo para a criação de algumas praças, cujo resultado está disponível no estudo de viabilidade. Belo Monte envolve ainda 3,8 milhões de m3 de concreto, contra 7,9 milhões de Tucuruí e 12,6 milhões em Itaipu.

Segundo a Eletronorte, as turbinas da casa principal serão do tipo Francis e as da casa complementar, do tipo Bulbo. Estas últimas que necessitam menor volume de água para serem movimentadas, e a usina produzirá mais de 27,5 MW por quilômetro quadrado, um dos melhores aproveitamentos hidrelétricos do mundo, contra 2,8MW/km2 de Tucuruí ou 8,6 MW/km2 de Itaipu, a maior usina hidrelétrica do país.

XINGU VIVO



O Xingu é um rio interior amazônico, que nasce a oeste da Serra do Roncador e ao norte da Serra Azul, no leste do Mato Grosso. Corre na direção sul-norte, paralelo aos rios Tapajós e Tocantins, e após percorrer pouco mais de 2 mil quilômetros, desagua ao sul da Ilha de Gurupá (PA), na margem direita do Amazonas, do qual é um dos maiores afluentes.

Cachoeiras da Volta Grande do Rio Xingu Segundo os estudos elaborados pela Eletronorte entre 1975 e 1980, a Bacia Hidrográfica do Xingu, que se estende por 450 mil km2, tem um potencial hidrelétrico de 22 mil megawatts, um dos maiores do país. A Volta Grande do Xingu, uma queda de 96 metros onde o rio quadruplica de largura e forma diversas cachoeiras e ilhas, concentra boa parte do potencial hidrelétrico do rio sendo por isso o local escolhido para a construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte.

“A Volta Grande do Xingu, local que é chamado de 'fall line' (linha de queda) sul-amazônica, nada mais é do que o ponto de encontro de um relevo cristalino, portanto, duro, com outro sedimentar, menos duro. Conforme a erosão do rio, o ponto mais rígido fica e o sedimentar cede. No passado, quando as cidades foram formadas, os viajantes, os jesuítas, vinham de barco e paravam nos pontos de cachoeira porque o barco não conseguia passar. Assim nasceram cidades como Tucuruí e Altamira.

De acordo com artigo dos antropólogos Eduardo Viveiros de Castro e Lúcia de Andrade, as perigosas cachoeiras do Xingu foram o grande obstáculo para a invasão europeia na região, com a concentração de missões e vilas até o século XX no Baixo Xingu.

ATIVIDADES ECONÔMICAS LOCAIS

Altamira, Anapu, Brasil Novo, Gurupá, Medicilândia, Pacajá, Placas, Porto de Moz, Senador José Porfírio, Uruará e Vitória do Xingu foram os municípios definidos pela Eletronorte como a área de abrangência de Belo Monte, locais que contam com Floresta de Terra Firme e Floresta de Várzea. Mais de 300 mil pessoas vivem na região, que tem como elemento integrador a Transamazônica e o Xingu em sua parte navegável e Altamira como maior centro urbano local, com mais de 70 mil habitantes.

“As cidades da 'fall line' estão interligadas pela Transamazônica, que fez parte de um programa geopolítico, que envolvia, entre outros, a construção de diversas hidrelétricas na Amazônia para a expansão de projetos de mineração e industrialização do país e a colonização da região", diz Costa. Porém, em função de um período de incerteza econômica e instabilidade da moeda estrangeira, Tucuruí só foi construída a duras penas. Os projetos de colonização do governo foram conduzidos pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) a partir da década de 70 e contaram, principalmente, com migrantes do Nordeste e do Sul do país, que se estabeleceram em pequenas e médias propriedades.

Segundo Sônia Magalhães, pesquisadora do Departamento de Ciências Humanas do Museu Goeldi (PA), existem dois tipos de povoamento na área de influência de Belo Monte: o mais antigo, representado por populações ribeirinhas típicas da Amazônia, de origem indígena ou não, com uma menor relação com o mercado; e o mais recente, que se inicia com a colonização do Estado, notadamente pessoas da Bahia e da Região Sul, pequenos e médios agropecuaristas. “O campesinato mais consolidado, hoje formado por pequenos e médios agricultores, vem obtendo conquistas importantes relacionadas a políticas de crédito e ações de infra-estrutura.” Uma das principais organizações locais de trabalhadores rurais, a Federação dos Trabalhadores na Agricultura (Fetagri) do Pará - filiada à Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag) - obteve há pouco tempo, por exemplo, a abertura de uma linha de crédito específica para a agricultura familiar, com recursos do Fundo Constitucional do Norte. Segundo dirigentes da Fetagri, esta linha de crédito possibilitou a permanência de mais de 700 famílias na região.

“Cacau, café, maracujá, pimenta, castanha, arroz e feijão estão entre os principais produtos agrícolas locais. Existem também algumas fazendas de gado e, por outro lado, diversas populações ribeirinhas e comunidades indígenas que se sustentam, basicamente, da pesca”, afirma Reinaldo Correa Costa.

Juruna, Assurini do Xingu, Araweté, Parakanã, Kararaô, Xikrin do Bacajá, Arara, Xipaia e Kuruaia são os povos indígenas que habitam a área de influêrncia direta e indireta de Belo Monte, conforme apontado acima, e que somam mais de 2 200 habitantes. A Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) acrescenta a esta lista vários povos Kaiapó e cerca de 1.130 índios que habitam a zona urbana de Altamira (clique no mapa ao lado).

Além da agropecuária e da pesca, a extração de madeira também é uma fonte de renda local, complementa Maria do Socorro Simões, coordenadora do projeto Imaginário nas Formas Narrativas Orais Populares da Amazônia (IFNOIP), da Universidade Federal do Pará (UFPA).

A extração predatória de madeira ocorre principalmente nos municípios de Altamira, Senador José Porfírio, Brasil Novo, Uruará e Senador José Porfírio. De acordo com o diagnóstico do Instituto do Homem e do Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) sobre a atuação do setor madeireiro no Estado entre 1998 e 2001 divulgado no início de outubro, o Pará responde pela produção de 65% da madeira em tora do Brasil. O engenheiro florestal Adalberto Veríssimo, um dos responsáveis pelo estudo, explica que a atividade madeireira atualmente não é significativa na área de influência de Belo Monte. Apesar disso, o diagnóstico aponta que está havendo uma migração de madeireiras para o Oeste do Estado e, em menor proporção, para pólos madeireiros de Altamira e Uruará.

UM CONJUNTO COMPLEXO DE IMPACTOS SOCIOAMBIENTAIS

Inundação constante, hoje sazonal, dos igarapés Altamira e Ambé, que cortam a cidade de Altamira, e parte da área rural de Vitória do Xingu. Redução da vazão da água a jusante do barramento do rio na Volta Grande do Xingu e interrupção do transporte fluvial até o Rio Bacajá, único acesso para comunidades ribeirinhas e indígenas. Remanejamento de cerca de famílias que vivem hoje em condições precárias na periferia de Altamira, na área rural de Vitória do Xingu e de 350 famílias ribeirinhas que vivem em reservas extrativistas. Alteração do regime do rio sobre os meios biótico e socioeconômico, com redução do fluxo da água. Estes são alguns dos impactos socioambientais listados.

Para Sônia Barbosa Magalhães, professora da Universidade Federal do Pará, entrevistada pelo ISA em meados de 2002 quando era do Museu Goeldi, além da alteração de vazão de rio, com mudança de regime de inundação e consequências para a agricultura, afluxo populacional e desestruturação fundiária, o 'boom' das grandes hidrelétricas no país e o conceito de impactos diretos e indiretos em disputa nessas obras são fatores muito preocupantes. “Tradicionalmente, as subsidiárias da Eletrobras chamam de efeito direto o que seria alagado e de efeito indireto as áreas não alagadas, quando deveriam adotar critérios mais abrangentes.”

Sônia integra o painel de especialistas que, em outubro de 2009, apresentou estudos críticos sobre o EIA/Rima de Belo Monte.

ALTERAÇÕES NO MEIO AMBIENTE






Com a cheia permanente, as árvores irão resistir alguns meses, mas depois vão morrer, com o afogamento das raízes. “Essas árvores servem de dieta para muitos peixes, por exemplo, o que gera impacto sobre a fauna e, consequentemente, para todo o ciclo ecológico da área. Além disso, muitos peixes sincronizam a desova com a cheia e, portanto, na parte que vai ficar muito seca, é possível que haja diminuição de diversas espécies. Esses impactos deverão provocar uma busca por novas áreas de pesca comercial e ornamental, que provavelmente se estenderão pelo trecho a montante da cidade e poderão atingir o Médio/Alto Xingu e Iriri.” Para Zuanon, além da influência para a alimentação das populações, na parte baixa deve haver problema de navegabilidade. “Outro ponto é que a vida do índio e do caboclo está diretamente relacionada a esses ciclos sazonais, quando você muda este ciclo altera o 'motor do sistema', com reflexos imediatos e sérios para a população”, analisa.

COMUNIDADES INDÍGENAS

Além dos Juruna da Terra Indígena Paquiçamba, localizados mais próximos à usina, a área de influência de Belo Monte, segundo definição da Eletronorte, envolve outros nove povos indígenas: os Assurini do Xingu, os Araweté, os Parakanã, os Kararaô, os Xikrin do Bacajá, os Arara, os Xipaia e os Kuruaia. A Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) inclui ainda vários povos Kaiapó na região e mais de 1 mil índios que vivem em Altamira.

“O pessoal de Paquiçamba depende muito do regime de águas de Volta Grande. A perspectiva de terem de buscar alimento, atravessando canais, mostra que essa aldeia indígena não está sendo considerada de forma adequada. Quando a gente pensa que são mais de 20 etnias ao longo de toda a bacia, então é uma perspectiva altamente arriscada do ponto de vista social. Principalmente, se a gente levar em conta que a aprovação do projeto deveria ser submetida ao Congresso Nacional, já que ele atinge diretamente uma comunidade indígena, e o Congresso Nacional ainda não opinou de forma devida sobre Belo Monte”, explicava, em entrevista ao ISA em 2002, Célio Bermann, professor do Programa de Pós-Graduação em Energia da Universidade de São Paulo.

O artigo 231 da Constituição Federal, relacionado aos direitos dos índios, determina que o aproveitamento de recursos hídricos em Terras Indígenas, aí incluídos os potenciais energéticos, só pode ser efetivado com a autorização do Congresso Nacional, ouvidas as comunidades afetadas. Também prevê que são nulos e extintos todos os atos jurídicos que afetem essa posse, salvo relevante interesse público da União, e que será necessária uma lei ordinária que fixe as condições específicas para exploração mineral e de recursos hídricos nas Terras Indígenas.

A importância do artigo 231 da Constituição Federal foi reconhecida pelo então presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Marco Aurélio Mello, que utilizou diversos pontos do dispositivo para negar, no dia 4 de novembro de 2002, o pedido da União para cassar a liminar que suspendia o EIA.

O PASSADO QUE CONDENA

Construída no Rio Uatumã (AM) e inaugurada parcialmente em 1988, a Usina de Balbina é considerada um dos piores investimentos do país do ponto de vista econômico, ambiental e social. Inundou uma área de 2,3 mil km2 para uma potência instalada de apenas 250 MW. Entre o imenso passivo socioambiental de Balbina está a inundação de 30 mil hectares da Terra Indígena (TI) Waimiri-Atroari, o que obrigou o remanejamento de duas aldeias. Para compensá-los, a Eletronorte financiou a demarcação da TI Waimiri-Atroari, de 2,5 milhões de hectares, e o Programa Waimiri-Atroari, que envolve ações nas áreas de saúde, educação, meio ambiente, apoio à produção, vigilância dos limites, administração e documentação e memória durante 25 anos.

ENERGIA PARA QUEM?

Para uns, a possibilidade de gerar energia para o Pará e, uma vez interligada ao Sistema Elétrico Brasileiro, para todo país. Para outros, uma usina voltada a produzir energia para indústrias eletro-intensivas, com destaque para as indústrias de alumínio.

“Espero que grande parte desta energia seja consumida no próprio Pará, mas isso ainda é um sonho. No cenário atual, ela será incluída dentro do Sistema Elétrico Brasileiro, e acho que a tendência natural será utilizar a energia não usada no Pará para suprir o Nordeste, para suprir todo o país ”, afirmava José Muniz Lopes, presidente da Eletronorte, em meados de 2002.

As indústrias eletrointensivas - ligadas à indústria de cimento, à produção siderúrgica e à produção de alumínio - estão entre os principais investidores no setor elétrico do país, segundo o especialista em energia Célio Bermann. E as empresas que formam o consórcio que disputará o leilão de Belo Monte são a prova disso: Vale, Neoenergia, Votorantim Alumínio e Andrade Gutiierrez.

“As empresas de alumínio utilizam 8% de toda a energia elétrica do país e cerca de 2% no mundo. Se falarmos em alternativas energéticas, não existe uma alternativa para uma grande fábrica de alumínio. Isso é uma coisa estrutural no modelo de desenvolvimento do país, que elimina a possibilidade de outras alternativas de desenvolvimento”, explicava, em 2002, Glenn Switkes, que foi coordenador da ONG International Rivers Network. Glenn faleceu em janeiro de 2010.

INDÚSTRIAS CONSOMEM 50% DA ENERGIA PRODUZIDA

O especialista Celio Bermann, que é professor do Programa de Pós-Graduação em Energia da Universidade de São Paulo, acrescenta que cerca de 50% da energia elétrica no Brasil é consumida por indústrias, sendo que 30% se restringe a seis setores: cimento, aço, alumínio, ferro-ligas, petroquímica e papel e celulose. “O Brasil precisa repensar urgentemente o perfil da indústria que quer no país, para reduzir a produção de produtos intensivos no consumo de energia com baixo valor agregado. O alumínio é vendido a um preço insignificante para o mercado internacional e gera pouco emprego. Fiz uma avaliação há pouco tempo sobre a mão-de-obra empregada para produção de alumínio e concluí que é 70 vezes menor do que a gerada pela indústria de alimentos e bebidas e 40 vezes menor do que a gerada pela indústria têxtil. Quando repensarmos a produção industrial brasileira, poderemos abrir novas oportunidades para a geração descentralizada, para a geração a partir da biomassa, da energia eólica ou das Pequenas Centrais Hidrelétricas (PHEs). Do ponto de vista ambiental, estas são alternativas muito mais adequadas e do ponto de vista econômico-financeiro já se mostram competitivas, para usar um termo do mercado, embora exista esta restrição. Não fornecem energia em grande escala, mas essa escala é exigida pelas indústrias, pelos grandes centros urbanos.”

Sobre a privatização do setor, Célio Bermann aponta que ela tirou do Estado a capacidade de pensar a longo prazo, planejar. “O que hoje existe no Brasil são os programas nacionais de expansão. Cada ano um comitê de expansão de energia elétrica faz um estudo prevendo o crescimento da demanda e, em função disso, estabelecem, de forma indicativa, os empreedimentos que devem ser desenvolvidos para atender o crescimento do mercado. Essa é a única referência de planejamento no Brasil. Os estudos de longo prazo da Eletrobras não existem mais. O setor elétrico acha que o mercado tem capacidade de resolver a oferta. O interesse público, portanto, fica à mercê do setor privado, o que não é a melhor forma de resolver o problema de energia, que é estratégico num país que tem 20 milhões de pessoas sem acesso à energia elétrica.”

Créditos: ISA - Instituto Socioambiental

quinta-feira, 6 de março de 2014

Família - O termo família, é derivado de famulus (escravo doméstico) – foi uma expressão inventada pelos romanos para designar um novo organismo social que surge entre as tribos latinas, ao serem introduzidas à agricultura e à escravidão legal. Esse novo organismo caracteriza-se pela presença de um chefe que mantinha sob seu poder, os filhos e um certo número de escravos, do poder de vida e morte sobre todos eles e um certo número de escravos, com poder de vida e morte sobre eles, o paterpolistas.


CONTEXTUALIZANDO  FAMÍLIA
  • CONTEÚDOS:
  • Teoria e História da Família
  • Definições e Conceitos de Família
  • Estrutura, Papéis e Funções da Família
  • COMPETÊNCIAS E HABILIDADES
  • Conceituar a origem e historicidade da família.
  • Entender definições e conceitos da família
  • Compreender o papel, a estrutura e as funções desempenhadas pela família

Material para autoestudo
Verificar no portal os textos e as atividades disponíveis na galeria da unidade
  • DURAÇÃO
  • 2 h/a – presenciais com professor interativo
  • 2 h/a – com professor local
  • 10h/a – mínimo sugerido para autoestudo.
TEORIA E HISTÓRIA DA FAMILIA
Como em outras situações da vida humana, o ciclo que compõe a vida familiar perpassa por etapas sucessivas durante o processo evolutivo. Esse fato leva a constante busca de teorias e conceitos que expliquem a origem e estruturação do grupo familiar.
Estudos apontam que, originalmente, as famílias organizavam-se sob a forma matriarcal, conseqüência da vida nômade dos povos primitivos. Nessa época, os homens ainda desconheciam as técnicas do cultivo da terra, e precisavam sair em busca de alimento. As mulheres permaneciam com a prole, que crescia praticamente sob a influência exclusiva da genitora. Essa situação genuinamente prepondera a figura materna e, em certas sociedades matriarcais essas mulheres possuíam o direito de propriedade e certos privilégios políticos.
A organização familiar, contudo, não se restringe à espécie humana. Faremos uma síntese sobre os comportamentos familiares de alguns animais para reafirmar o estilo genérico dos agrupamentos familiares na trajetória da espécie humana, Há de se lembrar que entre os animais há famílias em que, após o acasalamento, a prole fica sob os cuidados de um dos genitores, geralmente a fêmea, porém, em alguns casos, também encontramos o macho como responsável pelos descendentes. Por sua vez, algumas espécies de aves vivem com a família durante o período da reprodução e com seus bandos nas demais épocas do ano. A exemplo da espécie humana, também no reino animal existem famílias ampliadas(ou extensas), em que os filhos mais velhos auxiliam na criação dos irmãos. As abelhas operárias, filhas estéreis das abelhas rainhas, constituem entre si uma comunidade de irmãs com funções de mútuos cuidados, proteção e alimentação.
Segundo Morgan (apud OSÓRIO, 1996, p. 31), “havia originalmente uma promiscuidade absoluta, sem qualquer interdição para o intercurso sexual entre os seres humanos. Este teria sido o período da família consangüínea, estruturada a partir dos acasalamentos dentro de um mesmo grupo”.
Durante esse período, após a proibição do relacionamento sexual entre pais e filhos e entre irmãos, surgiu a família punaluana, também conhecida como família por grupo, onde os membros se uniam com componentes de grupos diferentes. Nesse contexto, os homens poderiam se casar somente com um elemento de outro grupo. Na família sindesmática ou de casal, a união acontecia entre casais que respeitavam o tabu do incesto, mas sem a obrigatoriedade do casamento intergrupos. Este tipo de família, encontrada entre os nômades, tinha como característica a convivência de vários casais no mesmo espaço e sob a autoridade matriarcal.
Da divisão das obrigações, oriunda do desenvolvimento da agricultura, teria originado a família patriarcal, criada sob a autoridade absoluta do patriarca ou “chefe da família” que, na maioria das vezes, vivia em um regime poligâmico, tendo as mulheres isoladas em determinados locais chamados de gineceus e haréns.
A família monogâmica, modelo da civilização do Ocidente, cujas origens encontram-se ligadas à ideia de posse ao longo do processo civilizatório, tinha como condição exigida para o reconhecimento dos filhos e transmissão hereditária da propriedade, a fidelidade. Esse modelo de família é predominante no mundo ocidental até os dias atuais.
A origem etimológica da palavra família, que deriva do vocábulo latino famulus- que significa escravo doméstico, o que pressupõe que, primitivamente, se considerava a família como sendo o conjunto de escravos ou servos de uma mesma pessoa. Isso nos remete à compreensão da natureza possessiva das relações familiares entre os povos primitivos. Nessa relação, a mulher obedecia seu companheiro como se fosse seu proprietário e dono. Os filhos pertenciam a seus pais, a quem deviam suas vidas e, por conseguinte, esses se julgavam com total direito sobre elas. O sentido de posse e de poder estava perceptivelmente ligado à origem e evolução do grupo familiar. Bilac (1953, p. 31- 231) discorrendo sobre o tema, cita Engels ao afirmar que:
O termo família, é derivado de famulus (escravo doméstico) – foi uma expressão inventada pelos romanos para designar um novo organismo social que surge entre as tribos latinas, ao serem introduzidas à agricultura e à escravidão legal. Esse novo organismo caracteriza-se pela presença de um chefe que mantinha sob seu poder, os filhos e um certo número de escravos, do poder de vida e morte sobre todos eles e um certo número de escravos, com poder de vida e morte sobre eles, o paterpolistas.
Talvez as raízes da palavra família expliquem porque até hoje existam filhos e esposas submissos ao chefe de família, sem opinar ou questionar sobre os problemas dentro do seio familiar.
Afirma Aries (1975) que, até o século XV, a família era“uma realidade moral e social, mas do que sentimental [...] A família quase não existia sentimentalmente entre os pobres, e, quando havia riqueza e ambição, o sentimento se inspirava no mesmo sentimento provocado pelas antigas relações de linhagem.
As famílias, até então, não tiveram necessariamente a reprodução cotidiana ou geracional como função especifica ou exclusiva, e, em muitos momentos, desempenharam simultânea e prioritariamente, funções políticas e econômicas.
Pelo exposto, podemos inferir que a família antiga era concebida como instituição fundada na e para a reprodução cotidiana e geracional dos seres humanos. Sua maior missão recaia na conservação dos bens, na prática comum do oficio. A ajuda mútua era essencial para a sobrevivência em um mundo em que seres humanos isolados não sobreviveriam. A função afetiva não pode ser identificada como algo fundamental à família nessa época, já que as trocas afetivas e contatos sociais aconteciam entre as pessoas mais próximas, não necessariamente membros familiares.
Assim, a instituição família consolidou-se na antiga aristocracia, não propriamente por laços afetivos, mas visando à questão econômica, ou seja, além do vínculo consangüíneo, a maior preocupação era assegurar que o poder aquisitivo não saísse das mãos de seus membros.
MODELOS DE ESTRUTURA DE FAMÍLIA
Para melhor compreensão, discorreremos sucintamente sobre 4 modelos de estrutura familiar, considerados de abordagem mais relevante quais sejam: família burguesa de meados do século XIX, a família aristocrática dos séculos XVI e XVII, a família camponesa dos séculos XVI e XVII e família da classe trabalhadora do inicio da Revolução Industrial.
Em meados do século XIX, a família burguesa, nuclear por definição, habitava as áreas urbanas. Sabe-se que, de 1750 até o presente momento histórico, o padrão demográfico da família burguesa evoluiu gradualmente para um padrão de baixa fertilidade e baixa mortalidade. O planejamento familiar inicia-se nesse grupo. No dia a dia, as relações entre os componentes da família burguesa assumiram um modelo característico de intensidade emocional e de privacidade. O casamento trouxe para esse grupo o conflito que oscila entre as necessidades da preservação da acumulação de capital e o valor de escolha individual.
A sexualidade entre os componentes dessa classe é uma das características mais surpreendente da história moderna. A burguesia se esforçou para adiar a satisfação sexual como em nenhuma outra classe. As mulheres burguesas eram consideradas seres assexuais, angelicais, acima da luxuria animal.
Para os homens dessa classe, o sexo estava dissociado dos sentimentos de ternura e era realizado como conquista de mulheres de classe inferior. A prostituição era requerida pelos homens burgueses porque a plena realização sexual tornou-se impossível para os cônjuges. A burguesia definiu-se moralmente, em contraste com o proletário promíscuo e a nobreza sensual, como uma classe dotada de virtuosa renúncia. O excesso desse comportamento “virtuoso” levou a burguesia à divisão entre o casamento e o amor, de um lado, e sexualidade de outro.
O casamento burguês torna-se perene. Interesses sociais e financeiros predominavam nessas alianças. Entretanto, o jovem burguês era impulsionado por um amor romântico. Ao findar o século XIX, o amor romântico passava a ser a razão central do casamento. Porém, o mais estranho é que na classe média, o amor romântico raramente sobrevivia aos primeiros anos, e a expressão “felizes para sempre” traduzia o viver juntos não com paixão, mas com respeitabilidade.
Na família burguesa, as relações eram consolidadas mediante rigorosas divisões de papéis sexuais. O marido era chefe dominante e provia seu sustento da família. A esposa era considerada ser não pensante e menos capaz, zelava apenas do lar, em alguns casos, com a ajuda de criadas. O principal interesse da esposa centrava-se nos filhos.
Os filhos foram reavaliados pela burguesia tornando-se seres significativos para os pais. Uma relação mais intima, profunda e emocional se estabeleceu entre pais e filhos dessa classe. O sentimento de amor materno foi considerado natural nas mulheres, que não tinham somente o dever de zelar pela prole mas também a missão de orientá-la para um lugar respeitável na sociedade, além da atribuição de cuidar do lar e do marido.
As relações internas das famílias burguesas eram preservadas pela sociedade. A família torna-se um santuário em cujo ambiente sagrado nenhum estranho tinha direito de adentrar. Sendo assim, até mesmo o local de trabalho dos homens da época não poderia ser próximo à residência, pois o lar não era um lugar de trabalho e sim de lazer, enquanto o ambiente de trabalho era destinado à ação,à razão. Torna-se assim, ambiente competitivo, hostil em contraposição ao ambiente de refúgio, aconchego, ternura e amor.
As crianças burguesas em idade pré-escolar, em maioria, não conviviam com outras crianças, mas com os adultos da casa. A partir de 1830, o Estado começou a elaborar orientação e normas que envolviam assuntos de família, mas, geralmente, só havia intervenção nos assuntos de famílias, ou seja, ninguém fiscalizava o tratamento das crianças burguesas. Com inovadoras formas de amor e autoridade, a família burguesa criou uma nova estrutura emocional.
Família Aristocrática (Séculos XVI e XVII)
O segundo modelo de estrutura familiar, oriundo da aristocrata européia, incluía uma mistura de parentes, dependentes, criados e clientes. Consistia em grupos com 40 até acima de 200 membros. Os aristocratas consideravam de suma importância a preservação da rede de relações de parentesco e linhagem.
A composição da casa nobre estava longe de ser estável, Criados e clientes entravam e saiam da casa nobre; crianças de ambos os sexos eram enviadas para serem criadas em outras residências nobres. Segundo demógrafos, os aristocratas eram propensos a terem mais filhos do que a classe inferior, e com índice de mortalidade infantil inferior.
Os enormes castelos eram locais públicos e políticos. Simbolizavam, pela magnitude material, o poder sobre o campesinato. No castelo não havia privacidade. As construções não propiciavam a privacidade. Todos os que chegavam e saíam esbarravam-se pelos caminhos e eram obrigados a passarem por salas em que haviam outras pessoas em decorrência da estrutura física dos castelos. Os ocupantes dormiam em toda a parte. O mobiliário também era multifuncional. As relações entre os componentes da casa eram regidas por uma austera hierarquia, estabelecidas pelas tradições.
Ali, a união matrimonial era um ato político da mais alta ordem. O destino da linhagem estava sujeito a casamentos que mantivessem intactas as propriedades da família. Aos pais, cabia a decisão de quem se uniria a quem. Os dotes eram pequenas fortunas e casar uma filha muitas vezes era oneroso. Sendo assim, o casamento pouco combinava com amor ou sexo.
Os aristocratas relacionavam-se sexualmente com a criadagem e com outros da mesma classe. As concubinas eram aceitas publicamente. Quase sempre as mulheres eram consideradas criaturas tão sexuais como os homens e assuntos como sexo e amor não eram assuntos privativos e secretos.
A riqueza dessa pequena elite (cerca de 1,5% da população na França do século XVIII), consistia no controle da terra e, em certo grau, nos favores do monarca. A terra, principal forma de enriquecimento da aristocracia,, de um modo geral não era considerada um capital a ser melhorado ou explorado. Era, antes de tudo, um patrimônio sob a prerrogativa da linha de família. A riqueza era para ser herdada e retransmitida, e não para se ganhar ou acumular.
O trabalho dos nobres era na guerra, servindo o rei e mantendo a ordem. As esposas eram figuras altivas, mas suas funções principais era conceber filhos e organizar a vida social. Em geral, não se ocupavam da administração da casa e nem com a criação dos filhos. A ordem na casa era organizada hierarquicamente, independente de influência externa. O Rei procurava controlar os nobres, com exceção no ambiente familiar, interferia somente em ocasiões raras.
Em virtude dos meios de transporte da época, os aristocratas em geral vivam longe de suas companheiras. Segundo estudos, as crianças aristocratas ficavam nas mãos da criadagem desde o momento de seu nascimento. Pai e mãe raramente se preocupavam com os filhos, principalmente nos primeiros anos de formação. Os cuidados com os filhos não eram considerados como procedimento relevantes e as mães ocupavam-se como damas da sociedade. As crianças eram consideradas pequenos animais e não seres que necessitassem de amor e atenção. Os recém-nascidos nobres eram amamentados por amas de leite. A morte dos pequenos nas mãos da amas não era incomum, tanto que algumas amas eram conhecidas como “amas assassinas”. Os filhos não desejados eram certamente encaminhados a essas mulheres.
Torna-se perceptível que as famílias aristocratas dispensavam pouco valor à privacidade, cuidados maternos, amor romântico e relações íntimas com as crianças. A vida emocional dos filhos não girava em torno dos pais.
A família camponesa (séculos XVI e XVII)
A estrutura familiar camponesa dos povoados que viviam em aldeias era diferente da classe dominante. O campesinato europeu incluía grandes desigualdades econômicas. e de posse de riqueza. Abrangia diferentes modos de produção. Segundo os demógrafos, os camponeses casavam-se perto dos 30 anos de idade e tinham poucos filhos vivos (quatro ou cinco). Embora houvesse muitos nascimentos, poucos ou somente a metade sobreviria até a idade adulta.
Embora fosse numericamente reduzida, a família camponesa estava interligada num vasto círculo de sociabilidade, onde a unidade básica da vida camponesa no início do período moderno não era a família conjugal, mas a aldeia. A aldeia era a família do camponês.
A autoridade social não estava embutida na figura do pai, mas na própria aldeia. Em alguns locais, o senhor da terra e o pároco eram autoridades efetivas, mas no controle e nas regras do dia a dia prevaleciam os costumes e as tradições da aldeia. Nenhum fato importante acontecia no seio familiar sem que fosse conhecido ou fiscalizado pela aldeia. Casamento, relações entre marido e mulher, e entre pais e filhos tudo passava pelo crivo dos aldeões, que impunham regras e sanções.
Camponeses e camponesas tinham funções separadas a desempenhar e, geralmente, as mulheres eram submissas, embora o trabalho dessas mulheres fosse imprescindível para a sobrevivência da família e da comunidade. Nessa classe, as mulheres trabalhavam duramente por longas horas, cozinhavam, cuidavam dos filhos, dos animais domésticos e da horta e juntavam-se ao resto da aldeia nos períodos da colheita. As mulheres regulavam os casamentos e fiscalizavam os namoros. Agindo desta forma, o patriarcado camponês tornava-se diferente do aristrocrata e do burguês.
Os episódios emocionalmente importantes nas aldeias não tinham significado na família e sim no seio comunidade. Eventos como festividades, cultos, casamentos e até mesmo a morte eram abertos a toda comunidade.
Em alguns lugares da aldeia, os pais tomavam as decisões sobre a união conjugal dos filhos, mas, em maioria, a comunidade tinha formas coletivas de namoro em que se providenciava a formação de casais adequados. A partir do século XVI, o Estado interveio nos casamentos, numa tentativa de reforçar a autoridade patriarcal.
A supremacia da aldeia sobre o parentesco e a família, mesmo no casamento monogâmico, influenciava as relações de pais e filhos. As genitoras camponesas eram auxiliadas nos deveres de cuidar dos filhos por parentes, pessoas idosas e moças solteiras. As mulheres da aldeia transmitiam às mulheres mais jovens os conhecimentos sobre o aleitamento, enfaixamento, curas de enfermidades, etc. Esse repasse de informações, era fiscalizados pelos aldeões que queriam se certificar que os costumes e tradições estavam sendo realmente repassados para os mais jovens.
No âmbito da família conjugal, as crianças não eram tidas como propriedades dos pais,nem tampouco consideradas o centro da vida. Os laços afetivos, em vez de limitados a pais e filhos, estendiam-se para fora, envolvendo a aldeia e antepassados. Os mortos eram considerados parte da comunidade. Segundo alguns historiadores, as crianças camponesas, ainda muito pequenas, eram abandonadas durante o dia todo, tendo que se arranjarem sozinhas quando o campo exigia a presença de suas progenitoras.
Assim, a autoridade da família camponesa difundia-se por toda a aldeia com vários adultos participando da vida da criança. A afetividade com que a criança se defrontava estava também dividida entre uma grande variedade de parentes e aldeões.
As relações entre pai e filho não continham intimidade ou intensidade emocional, as sanções eram impostas com castigos físicos. Provavelmente não internalizava figuras parentais de forma profunda, uma vez que a vida emocional da criança era condicionada pelos ritmos da aldeia, e extensas tradições e costumes.
A família da classe trabalhadora (meados séculos XIX)
A classe trabalhadora surge entre o campesinato deslocado e os níveis mais baixos da sociedade urbana. e desenvolve uma estrutura de família sob condições de agonia social e econômica, Entretanto, no decorrer do tempo, a família da classe trabalhadora passou a se parecer muito com a família burguesa.
A alta fertilidade, a alta mortalidade e a baixa expectativa de vida marcaram essa classe no período inicial da industrialização. Os salários eram baixos, crianças também precisavam trabalhar para ajudar no sustento da família. As condições de vida eram ruins, as horas trabalhadas giravam em torno de 14 a 17 horas diárias. Os filhos a partir dos 13 e 14 anos saiam de casa em busca de trabalho.
Os jovens proletários declaravam muito cedo independência dos pais.Esses grupos de jovens, alvos de preocupação constante, eram denominados “delinqüentes juvenis”. Nessa classe os jovens estavam propensos a casarem-se mais cedo do que na burguesia.As relações entre homens e mulheres tendiam a subverter os padrões patriarcais, dado que as mulheres trabalhavam fora de casa e ainda faziam afazeres domésticos.
Na família da classe trabalhadora, os filhos eram criados de maneira informal, mais antiga, sem a constante atenção e fiscalização da mãe. As crianças eram forçosamente amamentadas ao peito por mãe subalimentadas, cansadas e preocupadas. Nesse período, os cuidados com a higiene e controle genital eram negligenciados.Assim, os filhos do proletariado eram muito mais criados pela rua do que pela família. O padrão de autoridade imposto à criança da classe trabalhadora era semelhante à da classe dos camponeses, sem, contudo, ser fechada dentro de uma aldeia, mas jogada no mundo capitalista industrial.
Infere-se que a maior influência sobre as condições de vida da classe trabalhadora, tenha sido os movimentos sindicalistas que, coletivamente, lutaram pela melhoria de vida dos operários da época. Nesse período também os operários do sexo masculino estavam predispostos a formar pequenos grupos que oscilavam entre trabalho e bar. As mulheres, por sua vez, passaram a formar comunidades nas residências. Dessa forma, a família passava por novas transformações de organização e atribuição.
CONCEITOS DE FAMÍLIA
Para Da Mata (1987, p. 145)
Família não é apenas uma Instituição social capaz de ser individualmente, mas constitui também, e particularmente, um valor. Há uma escolha, por parte da sociedade brasileira, que valoriza a família, como uma Instituição fundamental à própria vida social; é um grupo social e uma rede de relações; funda-se na genealogia e nos elos jurídicos, mas também se faz na consciência social, intensa e longa.
Segundo Ferrari (1994, p.18)
Família é aquela que propicia aportes afetivos e o bem estar de seus componentes; ela desempenha papel decisivo na educação formal e informal; é em seu espaço que são absorvidos os valores éticos e humanitários onde se aprofundam laços de solidariedade; é também em seu interior que se constroem as marcas entre as gerações e são observadas os valores culturais.
Assim, a família pode ser entendida como um conjunto de relações sociais baseadas em elos consanguíneos, adoção e uniões socialmente reconhecidas legalmente ou não.
A família abordada enquanto unidade doméstica centra-se nas condições materiais, isto é, na manutenção da vida: alimentação, vestuário, habitação, repouso. No passado, o grupo familiar, era uma unidade de produção, encarregando-se, ela própria, da produção dos meios de sobrevivência.
Enquanto instituição, a família pode ser entendida como um conjunto de normas e regras, historicamente constituídas, que governam as relações de sangue, adoção, aliança, e determinam a filiação, os limites do parentesco, da herança e do casamento. O conjunto de regras e normas está contido nos costumes e na legislação, apresentadas no Código Civil.
A família também pode ser entendida como um conjunto de valores determinados como ideologia, estereótipos, preceitos, representações sobre o que ela deve ser. Ao longo da história no mundo ocidental, as teorias de como a família deve ser couberam inicialmente à igreja, em seguida ao Estado, e, finalmente, à própria ciência. Estas entidades organizaram várias regras e recomendações de como deveria ser o comportamento das pessoas. Atualmente são os meios de comunicação que divulgam e “ditam” novas idéias, orientações e estudos comportamentais relativos à família e seus membros.
A família proporciona o marco adequado para a definição e conservação das diferenças humanas, dando forma objetiva aos papéis distintos, mas mutuamente vinculados, do pai, da mãe e dos filhos, que constituem os papéis básicos em todas as culturas. (PICHON-RIVIÉRE, apud OSÓRIO, 1996, p.15).
Muitas são as conjecturas formuladas sobre família, algumas se caracterizam pelas funções biológicas, outras, pelas funções psicossociais, apontando o inicio às questões concernentes aos laços consanguíneos, ou seja, aos papéis maternos e paternos como estruturadores do grupo familiar. Dizer que família é a unidade básica da interação social talvez seja a forma mais genérica e sintética de defini-la.
Em todos os conceitos apresentados é comum observarmos que a família apresenta-se como uma estrutura social, uma construção humana que se consolida, transformando-se conforme a influência do meio social, sendo, portanto, historicamente construída.
Assim sendo, é importante ressaltar que a estrutura familiar varia conforme os momentos históricos, fatores sócio-políticos, econômicos, religiosos e culturais, estando o conceito de família associado ao contexto social no qual está inserido, ou seja, precisamos, antes de qualquer ação, definir de que família estamos falando, a época em que ela vive e a qual segmento pertence.
FUNÇÕES E PAPÉIS DA FAMÍLIA
A família funciona como agente educador. Exerce a função socializadora na transmissão da herança cultural e social durante os primeiros anos de vida da criança. È a família que repassa os usos da linguagem,costumes, valores e crenças,preparando a criança para o ingresso na sociedade.
É no seio da família que o homem aprende as virtudes sociais, como amor, fraternidade e obediência, qualidades requeridas para que se enquadre no meio.
No que concerne às atribuições que lhe são conferidas, Marconi e Presotto (1989, p. 106) consideram que
As funções básicas da família podem ser desempenhadas de várias maneiras, dentro dos mais diversos sistemas culturais, tentando moldar as personalidades individuais. Como agente educador, a família pode combinar duas funções especificas: Socializadora – na medida em que transmite a herança cultural e Social, durante os primeiros anos de vida: linguagem, usos, costumes, valores, crenças (processo de endoculturação), preparando a criança para o seu ingresso na sociedade. Social – quando proporciona a conquista de diferentes status como étnico, o nacional, o religioso, o residencial, o de classe, o político e o educacional. (grifo nosso)
Papéis Familiares
Os papéis familiares diferem conforme a composição familiar, confundindo-se devido à realidade da estrutura familiar. Para exemplificar, em um casal sem filhos os papéis familiares seriam tão somente os de marido e mulher. Já na família Nuclear seriam as de mãe-pai-irmãos e filhos. Na família extensa, há necessidade de incluir o papel dos avós, tios e demais agregados que dividem o mesmo teto. deve-se citar ainda, , na atualidade, as uniões entre pessoas do mesmo sexo.
Na visão contemporânea, houve uma transformação desses, papéis, e, em alguns casos, uma inversão. Tenha o casal filhos ou não, atribuir à mulher o papel de zelar pelo lar e do homem como provedor do sustento da família, seria um processo ultrapassado e não condizente com a realidade. O papel conjugal baseia-se na interdependência das partes do casal, pautado na essência da sobrevivência das pessoas. São os atos de complementaridade, cooperação, reciprocidade e compartilhamento de tarefas e sentimentos que delimitam o papel conjugal, seja entre acordos verbais ou não.
Papel Parental
O papel feminino apesar das diversas transformações ainda mantém uma das principais funções: o de gerar a vida. Porém, quanto às tarefas nutriciais, proteção e educação muito houve de absorção do papel paternal e pela pessoa remunerada para, na ausência da mãe, desempenhar o papel materno.
Papel Fraterno
O papel fraterno alterna entre dois comportamentos opostos: a rivalidade e a solidariedade. Por vezes o papel fraterno está deslocado para a relação entre marido e mulher ou entre filho e um dos progenitores.
O papel fraterno reproduz fora do contexto familiar na relação entre sócios, colegas e amigos, assim como os papeis parental e filial terão sua representação social em relações tais como a dos chefes e seus subordinados, professores e alunos, médicos e pacientes e outras tantas mais.
PAPEL FILIAL
O foco central do papel filial situa-se na subordinação do recém-nascido que depende dos cuidados dos pais para sobreviver. Salienta-se que há casos em que estas funções não são desempenhadas por papéis parentais.Os papéis, portanto, não são competências exclusivas do indivíduo a que normalmente se atribui.
FUNÇÕES DA FAMÍLIA
As funções da família podem ser divididas em biológicas, psicológicas e sociais. Apesar dessa divisão, não há como estudá-la separadamente.
A função biológica da família é de garantir a sobrevivência da espécie com cuidados dispensados aos recém-nascidos.As funções psicossociais são essência, já que o alimento afetivo é o que faz o desenvolvimento do indivíduo psiquicamente saudável. São estas funções que, quando bem desempenhadas darão sustentabilidade e apoio aos indivíduos nos momentos de crise e anseios humanos. Quanto às funções sociais, não só podemos inferir a transmissão das questões culturais, como também a preparação para o exercício da cidadania.
Assim, podemos dizer que, se os pais influenciam o comportamento do filho, este também interfere nas atitudes dos pais. Esse processo é chamado de retroalimentação.
  • CONCLUINDO
Podemos concluir que conhecer e entender a origem da família, bem como seus conceitos, funções e papéis requer mais do que a leitura do tema. Requer primeiramente, saber identificar sobre qual família, período e aspecto se quer conhecer mais profundamente.uma vez que há uma complementariedade de conhecimento essenciais para entender e conceituar a família em seus diversos contextos.
Vale ressaltar que todo comportamento hoje assinalado nos modelos familiares teve sua origem e sua história construída sob a influência de fatores externos como econômicos, políticos e sociais. Essa mutação ainda continua a modificar os papéis e comportamentos da família no contexto atual.
Saiba +: No lar burguês, predominava o treinamento de hábitos higiênicos; pedia-se que a criança controlasse o seu corpo, No castelo, a criança devia obediência à autoridade e à hierarquia social.

7 Comentários